Escrevivências

quarta-feira, 6 de maio de 2026

Desejo não se inventa: trajetória, memória e fundamento de um caminho sacerdotal, político e humano

Existem caminhos que a gente escolhe; outros simplesmente nos escolhem.

E quando eu digo que desejo não se inventa, é porque reconheço que algumas direções da vida não são produzidas na superfície das circunstâncias. Elas vêm de antes de nós. Dos que vieram antes, dos que sustentam nossos passos no invisível e do compromisso de destino que o orí guarda.

É nesse encontro entre o que me atravessa e o que eu construo que minha história se faz: como mulher preta, lésbica, gorda, como pessoa humana, como iyalorixá, como militante, como estudante, como coordenadora de projetos, como aprendiz, filha, irmã, amiga, esposa, tia, sobrinha, NETA... como alguém que segurou a vida por todos os lados até que ela mesma se reorganizasse.

Foi desse caminho que nasceu o Iya Convoca.

Não como invenção.
Mas como consequência.

O Iya Convoca nasce da necessidade de alinhar espiritualidade, política, formação, território, ancestralidade e transformação social dentro de um mesmo corpo de existência. Nasce do entendimento de que minha vida nunca coube em caixas separadas.

Porque quem milita também sente.
Quem cuida de terreiro também produz pensamento.
Quem sustenta projetos também sustenta afetos.
Quem vive o cotidiano das estruturas sociais e o capitalismo também pode sonhar com futuros coletivos.

Minha trajetória nunca aconteceu de forma linear. Sempre precisei lidar com escassez — de tempo, de recurso, de acolhimento, de estrutura. E talvez tenha sido justamente essa escassez que, até recentemente, eu ainda recorria às aprendizagens que esse tempo escasso me orientou a tecer — caminhos que hoje já não me servem mais.

Quando entrei na UFBA, não foi apenas um ato acadêmico. Foi sobrevivência. Foi enfrentamento ao racismo. Foi atravessar um espaço que historicamente nem sempre foi pensado para existências como a minha.

Em 2012, junto com outras pessoas incríveis, participei da fundação da (RE)cepção (UN)ificada (IN)terdisciplinar dos Bacharelados Interdisciplinares, a @REUNIBI. Foi ali que comecei a compreender que universidade não é apenas sala de aula: é disputa, construção coletiva e chão político.

Ao longo dos anos no movimento estudantil da UFBA, aprendi que o ensino público de qualidade não é presente. É algo que se sustenta diariamente, inclusive quando dizem que a gente não vai conseguir chegar até o fim.

E talvez por isso eu siga profundamente atravessada pela compreensão freireana de que a educação não transforma o mundo sozinha — ela transforma pessoas, e pessoas transformam o mundo. Porque eu sou fruto dessa transformação.

No meu caminho religioso, o processo também foi de busca por coerência.

Passei por dois diferentes espaços desde que me iniciei em 2010, até encontrar, em 2023, o terreiro onde meu orí finalmente reconheceu pertencimento: Ilé Àșe Ibà Oladeji Ijíomi.

Porque até então, desde 2020 (ano que saí da última casa de candomblé que fiz parte), tinha firme na cabeça que não queria apenas frequentar um espaço espiritual: o meu desejo era por uma comunidade que, dentro do possível e praticável, fosse um território que preza a coerência entre fundamento, cuidado e humanidade.

E coerência não é conforto. Exercitá-la exige.

Candomblé é continuidade, tradição, hierarquia e ancestralidade. Mas ancestralidade não pode ser usada como justificativa para violência, autoritarismo, transfobia, racismo ou silenciamento de corpos dissidentes.

Depois da minha obrigação de 14 anos de iniciada, realizada em setembro de 2025, algo dentro de mim se reorganizou profundamente:

Passei a me reconhecer como parte de uma geração sacerdotal, e eu compreendo, a partir da minha própria experiência, que respeito não se constrói pelo medo. Autoridade não é licença para violentar. E tradição não existe para aprisionar — existe para sustentar enquanto crescemos e caminhamos, a cada passo.

Meu corpo finalmente alcançou uma informação que cognitivamente eu já sabia desde 2020: meu destino nesta terra também passava pelo sacerdócio enquanto iyalorixá.

E foi através da linguagem de amor dos meus orixás, especialmente de Oxalá, Ogun, Iansã e Osun — que experimentei um sabor de acolhimento que nunca havia vivido. Um sabor de amor gerador de colo, húmus e companhia. Um amor próprio de quem sente orixá vivo e verdadeiro em sua vida.

Desse momento em diante, essa água que habita meu corpo começou a fervilhar.

E esse movimento interno me fez compreender que eu precisava alinhar:

  • minha experiência militante,

  • minha formação acadêmica,

  • minha vivência sacerdotal,

  • minha trajetória como mulher preta,

  • e meu compromisso coletivo,

dentro de um projeto que carregasse quem eu sou por inteiro. Sob a égide da canção de Sandy: “Eu só preciso ser”. (Você também viu?)

Assim nasceu também o Iya Convoca.

O projeto surge inicialmente com a proposta de construção de um Grupo de Estudos chamado Encruzilhadas, entendendo a formação como prática inseparável de axé, da vida e da transformação interna, externa e social.

Profundamente inspirada na educação popular de Paulo Freire, este meu movimento parte da compreensão da vida como ação–reflexão–ação.

Não à toa, as encruzilhadas aqui não são apenas metáforas. São metodologia. São espaço de encontro. São lugar de decisão, de escuta, de construção coletiva e de travessia.

Porque estudar também é transformar.

E transformar exige olhar para dentro e para fora ao mesmo tempo.

Inclusive, meus estudos mais recentes têm me feito perceber que muito daquilo que aprendi dentro das vivências de terreiro — desde a infância, através da minha família tanto materna quanto paterna, e das experiências atravessadas pela ancestralidade — dialoga profundamente com reflexões filosóficas, políticas e acadêmicas sobre existência, território, ética e humanidade.

Muito do que os povos de terreiro sustentaram pela oralidade durante gerações também é tecnologia ancestral de organização da vida. Acredito que isso que estou dizendo, em alguma medida, se relacione com as valiosas contribuições de Ailton Krenak, em especial em seu livro Ideias para adiar o fim do mundo.

E talvez seja justamente tudo isso que mais me atravessa hoje: compreender que ancestralidade também é lugar de elaboração de pensamento, metodologia, pedagogia e engenharia de existência.

Foi nesse percurso que percebi também que precisava parar de tentar me adaptar a espaços que diminuíam minha inteireza.

Eu precisava construir o meu.

Mas não um “meu” isolado.

E sim um caminho onde outras pessoas também pudessem se reconhecer.

Por isso o Iya Convoca é, antes de tudo, uma morada coletiva. Um habitat de encontro para pessoas que desejam construir pontes entre espiritualidade, formação, território, política, cuidado e transformação social.

Toda minha trajetória me ensinou que meu trabalho, minha fé e minha luta política não são caixas separadas.

Quem lidera projetos, quem forma pessoas, quem cuida de terreiro, quem organiza a vida apesar do capitalismo, quem sustenta afetos, quem cria oito gatos, quem segue mesmo cansada — tudo isso sou eu.

Inteira.

E é essa inteireza que sustenta o Iya Convoca.

O Iya Convoca não é apenas um projeto.

É síntese.
É continuidade.
É gesto de futuro.

É resposta à pergunta:
“O que eu faço com tudo que eu me tornei?”

Eu faço caminho.
Faço axé.
Faço formação.
Faço futuro.

E sigo compreendendo que ancestralidade não se faz com autoritarismo; se faz com responsabilidade.

Que tradição não é prisão.
É raiz.

E raiz não existe para segurar.
Existe para sustentar enquanto cresce.

No fim das contas, minha vida inteira é uma conversa entre o que me precede, o que me atravessa e o que escolho construir.

E é com essa consciência que sigo:
alinhando destino, estudo, política, afeto, fé e ação cotidiana.

Porque se desejo não se inventa, missão também não.

A gente apenas escuta, reconhece e caminha.

Ogunhê Patacuri
Bianca Menezes — Ìyá Ọtógundé(2026)

quarta-feira, 8 de abril de 2026

⭐Entre ciclos, obrigações e aprendizagens: o que permanece quando eu me torno eu?

Estamos em abril. E, contando a partir de hoje, faltam vinte dias para o meu aniversário de 35 anos de idade, e sinto um aprendizado diferente se movimentando em mim. Não é algo súbito — é uma compreensão que veio se acumulando com o tempo, como aquelas sínteses de Paulo Freire sobre refletir, agir, refletir de novo…


Ser um movimento que meu corpo dança, independente do nível de consciência da Bianca quando tinha 14, 22, 28 ou qualquer outra idade antes desses 35 anos que estão logo ali para chegar, ter sido uma dança e uma música conhecida… algumas dessas repetições conscientes a Bianca de agora tem feito. E aí passo a reconhecer um nascer da vida que está na possibilidade de enxergar o que mudou em mim, o que se deslocou, o que amadureceu.


Este abril tem me convocado a fazer esse balanço de transformação. Ter 35 anos não é apenas uma marca cronológica seguindo o calendário ocidental — é também a confirmação de que eu não estou no mesmo lugar de antes, e que cada ciclo me empurra para uma reorganização interna. Às vezes, é só quando o corpo se aproxima de uma data simbólica que ele entende o que já estava sendo construído por dentro e aí dar o próximo passo.


Curioso é que esse ano ainda tem setembro, e quando esse tempo chegar eu completarei dezesseis anos de iniciada. E essa repetição anual de celebrar mais um ano em que reafirmo a minha escolha de me iniciar é a mesma, mas hoje se apresenta com uma densidade nova: porque será a primeira vez que chego a essa marca com todas as minhas obrigações pagas (faltando apenas a de vinte e um anos) e com a sensação real de que ocupo o meu lugar por inteiro. Para ser ainda mais honesta, eu sinto isso desde que entrei no Oladeji — mas, quando paguei a obrigação dos quatorze anos no Ilé Àṣẹ Ibà Oladeji İjíomi, algo em mim assentou. Não uma certeza rígida, mas um aprendizado profundo: estou exatamente onde eu deveria estar.


E é desse lugar que venho pensando no que são princípios, valores e ética para mim. Porque, olhando para este momento da minha vida, percebo que meus aprendizados não são intelectuais ou abstratos — eles são práticos, relacionais, espirituais. Eles me lembram que cada pessoa só pode responder por aquilo que suas próprias escolhas exigem dela. E que aquilo que me cabe sustentar é diferente daquilo que cabe ao outro, ainda que estejamos do mesmo lado, no mesmo espaço, na mesma história.


Esse movimento tem aparecido nas pequenas coisas: em relações profissionais, em conversas, em decisões cotidianas. São situações que me fazem reconhecer a forma como eu compreendo o mundo: com tempo, respeito, responsabilidade, verdade e consistência. E também me fazem ver que a minha régua nasce das experiências que atravessaram o meu corpo — não das expectativas externas que tentam me dizer quem devo ser.


Talvez essa seja a principal marca dessa fase que se aproxima: entender que meu aprendizado é a minha bússola. Que crescer não é apenas acumular anos, mas compreender o que cada ano me pediu. Que ocupar a cadeira de Ìyá não é só sentar, mas aprender a sustentar o lugar físico e espiritual que ela implica. Que construir o terreiro de Ogum é também construir a mim mesma em movimento, numa ética que reconhece que eu e o outro vivemos processos diferentes, mesmo quando caminhamos lado a lado.


Aguardo a chegada oficial dos 35, mas já os sinto como meu caminho do meio da vida, porque, a partir dos meus 34 anos, ainda há espaço na minha vida que me caiba — e isso ser o meu caminho possível para um novo tempo. Porque o futuro é ancestral, a pedagogia é circular, as aprendizagens sustentam as histórias e as tradições, e Mãe Estela de Oxóssi, ancestral, nos ensina sobre o tempo ser o agora.


Nesse mesmo tempo presente que o mês de abril tem me convocado a refletir — e desses 34 quase 35 anos de idade — eu carrego comigo o que esses dezesseis anos de iniciação me ensinaram: que obrigações rituais nunca são apenas rituais — são também lembretes vivos sobre princípios. E cada princípio exige presença, inteireza, responsabilidade e honestidade comigo mesma.


No fundo, minha síntese é simples:

seguir.

Seguir aprendendo, refletindo, transformando, reorganizando.

Seguir honrando o que veio antes e o que chega agora.

Seguir sustentando quem sou, porque este momento da vida finalmente me mostra — com maturidade, com história, com axé — que o lugar onde estou é exatamente o que me cabe neste agora.

sexta-feira, 9 de janeiro de 2026

Ficar: escolha, tempo e o direito de viver

 Dia do Fico desde 9 de janeiro de 1822

O Dia do Fico marca, na história oficial, um gesto político de permanência. Mas permanecer não é, necessariamente, desobedecer apenas.

Ficar é um ato de escolha.
Em certos contextos, sobreviver ainda é o mínimo que se pode alcançar.
Ampliar escolhas exige consciência — das necessidades que nos atravessam e das implicações que assumimos.

Cada pessoa vive esse processo de modo singular, mas o processo é atravessado, vivido e influenciado na relação com o coletivo

Entre setembro e dezembro de 2025, desaguei em um tempo profundo de recolhimento.
Os anos anteriores — 2024 e parte de 2023 — foram intensamente desgastantes por diversos motivos.
Esse recolhimento não foi ausência do mundo, nem negação da vida coletiva.
Foi silêncio como ferramenta.
Um silêncio necessário para reorganizar prioridades, escutar limites e compreender, com mais honestidade, o que ainda fazia sentido sustentar — e o que já não podia mais orientar minhas escolhas.

O ponto alto desse processo foi, pela primeira vez em trinta e quatro anos de vida, ter escolhido ficar.
Sustentei o desejo de, no Natal e no Ano Novo, permanecer sozinha em casa.
Não porque rejeite datas comemorativas.
Eu gosto de família, gosto do barulho, da confusão, dos gritos, do caos amoroso que só vínculos longos e familiares conseguem produzir.
Gosto da vida compartilhada.
Mas há momentos em que o cuidado exige pausa.
E há pausas que não são fuga: são preparação.

Durante muito tempo, permaneci em contextos familiares não por desejo, mas por falta de alternativa. Em família, os laços são densos, históricos, sanguíneos. Nem sempre permitem afastamentos simples. Houve períodos em que eu quis estar. Houve outros em que eu apenas fui. E houve aqueles em que, mesmo ferida, rejeitada ou deslocada, eu me forcei a permanecer, acreditando que pertencimento precisava ser sustentado a qualquer custo.

Hoje reconheço: essa permanência também foi sobrevivência.
Mas sobreviver não é viver

Com o tempo — e, sobretudo, com a vivência do axé — aprendi que família não é apenas herança biológica. Ao iniciar, a pessoa passa a habitar dois mundos familiares: o da consanguinidade, com suas histórias, afetos, faltas e interferências; e o da família de axé, que inaugura outro tipo de vínculo familiar, outra ética de cuidado, outra responsabilidade coletiva.

Esses mundos não se anulam. Eles coexistem. E coexistir exige consciência.

Hoje, como Ìyálòrìṣà, tenho diante de mim a possibilidade concreta de fundar novas dinâmicas familiares. Isso não significa negar o que recebi nem apagar minha história. Significa escolher, com lucidez, o que seguirá comigo e o que não terá continuidade na minha prática, mesmo que um dia tenha sido sagrado.

Não existe manual para isso.
Existe memória.
Existe desejo.
Existe orí.
Existe presença.

Cuidar de mim, hoje, não é lutar contra o impossível. É reconhecer o possível. Validar as condições reais que tenho para existir com dignidade, inteireza e responsabilidade. É a partir desse chão — humano, limitado e concreto — que se constroem pontes para aquilo que, agora, ainda parece distante.

O impossível, muitas vezes, é apenas o limite do nosso campo de visão.
E isso não é fracasso.
É condição humana.

Ser filha, ser irmã, ser tia, ser neta, ser sobrinha, ser prima, ser mãe — de sangue, de axé ou de ambos — não é destino fixo. É um campo de escolhas contínuas. Escolhas que precisam respeitar o tempo interno, o cansaço legítimo e o direito de não se violentar em nome de expectativas alheias.

Abrir espaço para o cansaço não é desistir da vida. É criar condições para continuar vivendo.

Por isso, a pergunta que tem orientado minhas decisões não é “o que esperam de mim?”, mas outra, mais radical e necessária:
o que eu tenho feito com o tempo que eu tenho?

Essa pergunta só cabe a mim.
Ao outro, ela só pode existir como convite — nunca como exigência. Cada pessoa só pode decidir o que fazer com o próprio tempo depois de reconhecer seus limites, seus desejos e seu destino possível.

No Dia do Fico, escolho permanecer onde há verdade.
Não por obrigação.
Não por medo.
Mas por responsabilidade com a minha própria existência.

Em 2026, sigo a partir desse lugar.
Sem promessas grandiosas.
Sem idealizações vazias.
Com prática possível.

A regra é simples e inegociável:
eu só preciso ser.

O resto se constrói no tempo.
Com cuidado.
Com presença.
Com consciência.


quarta-feira, 17 de dezembro de 2025

É de um Abiã que se faz uma Iyá: como forjar um terreiro com a sua consciência? Meu Manifesto

 sobre destino, asé e condução.


Eu sou o meu terreiro desde o dia em que nasci.
Antes do nome, antes da iniciação, antes mesmo de saber.
O corpo já carregava destino, sopro de Olódùmarè e o pacto ancestral do que eu vim ser.

No Candomblé, o saber popular ensina: é de um Abiã que se faz um pai ou uma mãe de santo.
Antes do Ìyàwó, existe o Abiã. Antes da forma, existe o chamado. Antes da confirmação coletiva, existe o destino que respira desdo primeiro suspiro.

A iniciação não cria uma Iyá.
Ela organiza, forja, legitima e dá forma coletiva a algo que já existia, por aproximação contínua com o destino. Isso só é possível no tempo — e o tempo não é linha reta: ele é transversal, circular.

Hoje eu afirmo isso com nitidez porque foi o asé que me convocou a me olhar por inteira.

Nasci prematura, com sete meses. Um corpo que chegou antes do tempo para a ciência mas que não permaneceu sequer trinta minutos dentro de uma incubadora. Cresci, segui, me fortaleci — mas ainda hoje, em alguns momentos, preciso reaprender a respirar, retorno para incubadora.

Essa experiência lapidou o meu olhar sobre mim e também o olhar das pessoas ao meu redor, inclusive os julgamentos que dele derivam. O conteúdo muda tudo. O tempo segue contínuo, circular. E hoje eu compreendo: a iniciação não cria uma Iyá — ela a revela no tempo certo.

Ser Abiã, ser Ìyàwó, tornar-se Egbón, receber cargos e, por fim, o Deká: essa é a caminhada pela qual, tradicionalmente, se faz um pai ou uma mãe de santo no Candomblé no Brasil.
Tudo isso é fundamental. São marcos de responsabilidade, pertencimento, crescimento e rigor ético — como o bambu que enverga, mas não parte.

Ainda assim, o que hoje eu enxergo e sinto é que o terreiro nasceu comigo.
Há algo profundamente dual nessa experiência: ser Iyá é um dos caminhos por onde o meu destino se expressa, mas não é o único lugar onde ele habita. Ambas as afirmações são verdadeiras e estruturantes. O que se transformou ao longo do tempo foi a experiência de seguir no asé apesar de, a consciência que se ampliou, o nível de vigilância e o compromisso assumido. 

Quando isso muda, o tamanho muda. A régua passa a ter outras medidas.

Hoje, aos 34 anos de idade, com quinze anos de iniciada e com obrigação de 14 anos paga neste setembro de 2025, eu declaro um desejo: forjar um terreiro atento à violência.

Não porque a violência seja um tema abstrato, mas porque ela está profundamente registrada no meu corpo, na minha memória e na minha vivência de asé\vida — desde quando eu ainda era Abiã, desde quando eu nem sabia que tinha vindo a este mundo para ser Iyá.

As violências que eu conheci não terão lugar no meu terreiro.
Isso não é ingenuidade. Comunidades de terreiro são feitas de pessoas. Pessoas erram, tensionam, atravessam limites, repetem padrões. Quem é de terreiro conhece histórias, conflitos, burburinhos e enredos que, a depender da intensidade, exigem intervenção, escuta, transformação e, muitas vezes, firmeza de quem conduz — seja no campo do visível e material, seja no campo do invisível, da fé e da crença. Nenhum terreiro é imune. Terreiro é também chão, é gente, é raiz.

O exercício aqui não é idealizar o sagrado.
É sustentar o viver.

Conviver exige um exercício diário de autoconhecimento para lidar com as dores e as delícias de existir — de ser Bianca Menezes e de ser Otógundê, Iyálòrìṣà Otógundê.

Reconhecer o que há de força e de limite em mim é o que me permite cuidar, nutrir e sustentar o que tenho condições de ser. e se é assim comigo no minimo devo colaborar para que seja assim também para o outro. Porque eu reconheço que o asé circula dentro da sociedade e com a sociedade. Eu não apenas estudei a vida social: eu vivo nela. As questões estruturais, as pressões, os afetos, as disputas e a humanidade atravessam a história que cada um constrói. O que está em jogo é tecer os rumos da própria vida — e isso é inegociável, inquebrável, implacável. Isso é o asé, é ori em dialogo com seu destino. 

A diferença está no método.

No que se transforma.
No que se tem condições de repetir e no que se escolhe não repetir. A partir do instante da decisão, tudo passa a ser novo — e o novo sempre nasce do velho. O que se transforma em conduta e o que precisa ser interrompido.

Ser Iyá não me retira a humanidade — me convida a assumi-la.
Não sou melhor nem pior que ninguém. Sou uma mulher que nasceu com esse destino e escolheu não converter dor em ferramenta de poder. Meu compromisso é não naturalizar práticas que adoecem, não silenciar abusos e não confundir autoridade com violência.

Meu asé é humano.
Meu sagrado é vivo.

Para mim, o meu tecer é um desaguar, terreiro de condomblé é um espaço potencializador, onde todos possam existir como são, sabendo que as interações geram saldos positivos e negativos — energias complementares — porque, assim como na física, é do encontro consciente dos polos que a luz se acende.

Sigo com a inquietação necessária de erguer pontes indestrutíveis entre o que eu fui, o que eu sou e o que escolho não ser mais. Para permanecer aberta ao tempo, ao que ainda posso vir a ser, porque enquanto meu coração bate, ele é a bússola que me orienta a simplesmente ser — e a existir em harmonia com o que reconheço, nomeio e conheço em mim.

Iyá Otogunde - Manifesto (2025)
Menezes, Bianca (2025)

quinta-feira, 4 de dezembro de 2025

20.10.2020

QUEM NÃO TEM MEDO?
MEUS MEDOS SÃO VIVOS, TEM CORPO e TEM INTENÇÃO.

quem não tem desejo?
quem não tem sonhos?
quem?

quem consegue ter respostas pra todas as perguntas que diariamente surge?
quem mantém sem abalo a vida, o tempo, o amor?
quem?

na bagunça a gente rever o prumo, a vista. 

Controlar o medo?

04.11.2019

Não ter medo dos sentimentos que ganham vida dentro de si é um exercício continuo de rever-se porque com o passar do tempo há verdades que já não cabem mais e nem se entrelaça com a realidade da sua única existência no mundo. Embora exista coisas, pessoas, energias, vontades, fervuras que nos impulsionem a extravasar a cada medida vivida, a síntese que surge da razão e não da emoção tende a nos bagunçar. 

Porque ora ela nos provoca a mudar de forma radical e verdadeira, ora ela nos exige reconhecer quem somos a partir da capacidade que temos de agir, fazer escolhas, sentir e reagir. E as vezes conviver com essa versão transparente de nós mesmo ativa a nossa vulnerabilidade...nos expõem...e isso por vezes assusta e tem proporções gigantes... testada ao limite de todas as provocações, de todos os cortes e todas as quebradas, a permanência daquilo que se acredita e do que você tem condições de ser tornar-se uma questão de luta diária e isto constitui um fluxos de oscilações que sem o filtro do que te faz seguir, as coisas perdem o sentido, o combustível é esvaziado, a musica perde a harmonia.

Agimos diferentes em cada tempo de construção desdo nascimento até o renascimento, é o proposito que a gente escolhe, que nos proporciona o tom, o ritmo e o curso daquilo que nos retroalimenta a plantação feita com os nossos passos determinam a nossa colheita e o acumulo dessa irrigação que aqui chamo de caminhada transcreve os signos do nosso nome, da nossa potencialidade, do nosso lado cruel e do nosso mel.

a responsabilidade da nossa existência está em nós.

Eu. Você. Ele. Nós dois. Nós Duas. Vocês Dois. Nós Três! - 22.06.2015

Afago: Ação de afagar; carinho;carícia;agrado. Afagar o mundo, suas cores cinzas e as cicatrizares. Nutri apenas e sempre os sentimentos que pra ti saudáveis forem. Filtrar ruídos e superar projeções,expectativa.
Seria mais fácil, se fosse possível, lidar apenas com a razão, com logica, com o que é visto? com o que é concreto e faz sentido no mundo real, ou melhor, no mundo do adultos? Talvez. Quem sabe.... Sei que um turbilhão de perguntas rodeiam minha mente. Sobretudo, sobre conexões de vida, de corpo, de alma. Estou me convencendo que esta seja a explicação que mais caiba nesse emaranhado sem fim descrito no titulo.

Individualmente muitas mudanças ocorreram e elas afetam bruscamente a relação coletiva... seja nas duplas ou no trio. Todos os envolvidos percebem isso? Não sei, escrevo por mim, pelo que sinto agora e senti quando tive a oportunidade de compartilhar momentos.Por isso, a minha intuição e interpretação, assumiram  também o outro lado desta conversa e essa é a única verdade absoluta que escrevo.

Nós três... desdo inicio o elo de dois nesse triangulo estiveram seu espaço demarcado, definido, e com limites claro. Muito bem nítido e isso de certo modo foi ajudando a fortalecer os três. Era legal, a sensação de "trupe", o próprio contexto do seu forjamento contribuiu pra essa mágica, pra esse encanto de três, com duas e dois. Mais, ainda nesse contexto houve uma ruptura, uma escolha de lado, uma situação, uma ação, uma reação, uma consequência, um divisor de águas.

Tempo, o avassalador tempo nos forneceu a dor e a delicia de ser quem é. Trouxe distancias das personalidade parecidas de energias dedicadas a lados opostos e a sensação, o incomodo, ou talvez até a constatação de que algo mudou. Não há mais ligação entre dois pontos daquelas três que outrora foram ligados? Dessintonia. "mudamos, não tem como ser como éramos. É simplesmente isso, qualquer outra coisa é imaginação sua e se por a caso você falar comigo e eu não responder, ignore isso. Não te ignorei ou responde por maldade e sim por falta de tempo mesmo." Fecho os olhos e consigo com exatidão ouvir, me recordo da atenção dada ao guardanapo, pois nele, fazia anotações do que precisava ser feito quando chegasse em casa. Naquele fatídico dia eu coloquei no silencioso toda inquietação em relação a gente.

As vezes, algumas coisas se mantém vivas apenas pelo que foi. E neste caso, esforços pra romper esse clima, essa sensação seria nula. Só traria desgastes. Tomei consciência de que deveria seguir, assim como você o fez. Sem lamurias, sem pesares. E penso, ainda que arriscadamente, que se não estivéssemos sido  nós três, nós dois não teria espaço nesse tempo.

Curioso é, hoje perceber que todo os esforços dedicados para enxergar "além" poderia ter sido evitado se o olhar fosse no ato em si. Talvez não existiria sombra de sensações veladas, incômodos inexplicáveis, intervalos tão longos se  estivesse sido esta a visão. Escrevo sem saudosismo e sem vontade de uma maquina do tempo, apenas constato que os estragos não tem reparos, que caminhar ao lado requer passos em um mesmo ritmo. Hoje somos descompassados, desalinhados, nós três, nós dois e nós duas. E quanto a isso, por hora, não há o que fazer e está tudo bem por isso, afinal, tudo acontece como tem de acontecer.



continua escrito em 19/08/2014 ás 18:02, publicado hoje.

A exigência bloqueia a inspiração, o pensar bloqueia a imaginação e cada vez mais vai se tornando  raro descrever sentimento tão intensamente, tão fundo, tão reais, tão espontaneamente...Algo há de acontecer, algo tem que acontecer. Movimentar-se-ei, vida! é apenas isso que te peço porque não tão de repente, saber das coisas ficou chato, ficou insosso...

É um estado de fragilidade disfarçada, isso de não saber verdadeiramente o que se quer. Tu fica vulnerável, a mercê do julgamento do outro, do querer do outro e tudo absolutamente tudo vira um carrossel desgovernado. Gostaria apenas de perceber nesse momento algum sentido que determine, que seja a âncora desse navio de embarque chamado vida.Existe muitas coisas das quais eu sei, tipo, aquelas coisas que a gente não tem dúvida e ás vezes são justamente elas que nos disponibilizam caminhos tortuosos. 

Geralmente as pessoas costumam dizer que a experiência é algo apenas bom, espécie de talismã de vida. fonte de sabedoria... acho que as mesmas esquecem que algumas trazem marcas tão profundas que te aprisionam no medo de sentir de novo, pra evitar qualquer remota possibilidade de reviver aquilo que um dia foi extremamente algoz. E aí, a tal experiência te faz  as vezes manter a distancia, apertar o freio, esconder as chaves e disponibilizar cadeados. E quando a gente percebe determinado fio da meada, ou muita coisa foi perdida ou não foi devidamente vivenciada. E velha lacuna se faz presente além do nó na garganta e o fortalecimento da experiência que previne, que anula, que boicota, cresce e ganha espaço.

Sabe qual foi a ultima pergunta que me fiz sobre você? Depois que dei pause da "disputa" de espaço, o que em  essência te atrai, te move, te consome. Quais são tuas ideias e como elas interagem em sua pratica? Sem drama, sem crise, sem peso. Assim que eu te enxergar nua nesse sentido, estaremos reconectadas. Antes disso não dá, travei porque estou convicta de que a genuína reflexão conduz a pratica e eu ainda enxergo muito do mesmo em coisas que já compartilhamos teorias que supera diversas questões... então estamos em um impasse, em um hiato.

Sinceramente não sei por o desfecho dessa insatisfação, inquietação... por ora, eu sei que hás muitas perguntas para formular porque de concreto mesmo só as interrogações perambulando na mente e isso é péssimo.  Mais, entretanto, contudo, toda via... eu acredito na capacidade de ser e que todas as pessoas do universo a possuem. Eu acredito nisso muito fidedignamente. Somos capazes de ser, de nos tornar aquilo ao qual francamente nos disponibilizamos. Acredito que essa capacidade tem fonte e origem nos exercícios diários que podemos realizar em função daquilo que buscamos. Acredito também que isso exige e condiciona a um passo árduo e exacerbado de enfrentamento com a dor e a delicia de ser o que exatamente se é. E a partir daí trabalhar-se no que compreender ser importante e no que sentir vontade. 

Por mais que as circunstâncias propiciem um desligamento de emoções, lá no âmago, a gente sempre se importa, deseja, tem sonhos, ama, quer amar e ser amada. Pode até não ser confessado, demonstrado, percebido de primeira, nem de terceira... mais é inevitável. Os queres existem, uns chegam a urrar enquanto outros de tão silenciados precisam ser atiçados mais de qualquer forma eles estão lá e é preciso lidar com eles... e se não for nós mesmo? será quem? Ainda que assumir algum querer tenha a possibilidade de desconfigurar o que foi estabelecido no campo do ideal, não entremos em pânico, o que for real basta pois a  ação constrói e a pratica é o critério pra verdade.


domingo, 26 de outubro de 2025

OI, Bianca III

Seja inadequada.


Eu me daria esse comando — se fosse possível voltar ao útero de minha mãe, às vozes da infância, ao instante exato em que meu avô partiu, em 2008.


Antes de seguir, preciso me reconhecer: tem sido profundamente recompensador me enxergar na vida.

Antes de escrever, eu havia me proposto a uma hora de leitura noturna. Lia Você Pode Fazer a Diferença, de Stacey Abrams, quando algo me atravessou. A sensação descrita por ela era minha também — uma memória compartilhada entre corpos pretos e dissidentes, mas com destinos diferentes.


A leitura me acendeu o desejo de escrever. No mesmo instante, censurei o impulso. Recolhi as mãos. Repreendi o corpo e a mente que ousaram desejar antes da hora marcada.


Li mais uma linha, e então me ouvi: “Olha você sendo rígida consigo? Cadê a gentileza de entender que o corpo também pensa e deseja? Por que negar o que pulsa?”


Ri. E vim escrever.


Ao pegar o celular, lembrei do blogger. Fui procurar o aplicativo, não estava instalado. Recriminei-me novamente — sabotando o próprio desejo de escrever. Decidi anotar no bloco de notas. O título já existia em mim: Oi, Bianca.


Fui conferir: o primeiro foi escrito em 15 de novembro de 2023; o segundo, em 27 de outubro de 2024; e hoje, 26 de setembro de 2025, volto para abraçar as Biancas que fui — e a que estou sendo.


Percebo agora que nada disso é acaso. Nenhuma raiz tem limite de profundidade.


17 de setembro: aniversário de meu avô.

18 de setembro: minha iniciação no Àṣẹ.

24 de novembro de 2008: a partida dele.


Outubro, entre nascer e morrer, é portal ancestral.


Inconscientemente, esse tempo age em mim: passado, presente e futuro se curvam num mesmo ponto. Agora consciente, entendo que o sentir do passado se transforma, sem precisar voltar no tempo.


As vezes em que me senti inadequada, hoje as acolho. Dou colo à Bianca que não sabia distinguir se a inadequação era dela — ou do racismo que a queria contida, educada, menos viva.


A Bianca de hoje sabe: há uma diferença abissal entre ser inadequada e ser feita inadequada.


E, sabendo disso, me pergunto: se os ciclos existem para serem vividos, o que faço para não repeti-los do mesmo modo?


Respondo: cultivo o sentir.


O sentir é a direção. É ele que nutre os caminhos e sustenta os passos.

Seja firme, Bianca\Ọtógundé.

Seja e ame você.

Seja inadequada.

domingo, 27 de outubro de 2024

Oi, Bianca II

Descobrir depois de trinta e três anos que ainda é possível te conhecer, mais que isso, ainda é possível ser uma Bianca profundamente nova, recém-nascida. 

Renascer com tudo que o novo unicamente possibilita e com tudo que tão unicamente as vivências registram o tempo vivido.

Bianca você nasceu destinada. 

Você é uma pessoa que mobiliza, é um dos seus dons porque é de nascença, lembra a história da incubadora? De lá pra cá, você mobiliza, sua presença mobiliza, sua conduta mobiliza. São trinta e três anos, mobilizando diuturnamente o mundo, as pessoas, tudo que você toca. 

Como tem sido pra você isso? ao mobilizar o que ainda funciona? o que fazer com a parte da mobilização que já não cabe mais? É possível mobilizar menos? é possível escolher o quanto e o quanto mobilizar? Você se enxerga como uma pessoa que mobiliza? Se sim como é que você avalia ser uma nata mobilizadora? e por fim mais não menos importante você se mobiliza pra você tal qual sua existência mobiliza naturalmente o mundo e as outras pessoas? aaaaa tem algo de novo quando você olha para esse traço da sua trajetória? 

Bianca, desde nascença você também é uma pessoa forte. Mais uma vez a história da incubadora, se manifesta para você com um traço de algo que, de diferentes formas, se manteve em sua vida e fez parte do sua dia-a-dia. Sendo na vida desde o primeiro suspiro uma prematura forte, foi sem sequencia uma criança forte, uma adolescente forte, uma adulta forte até que as violências sofridas a quebrou. 

Bianca então rompeu. desconfigurou-se. A dor alargou-se em dores, porque a cada corte, a cada violência, brutalmente camada de tudo que era conhecido foi comprometida. A solidez deixou de literalmente de existir, o solo foi concretado, e o cinza cristalizou os sentidos, dilacerou com você Bianca.

Mas porque dilacerou? Porque diferente das outras violências que você já passou até aquele ano, aquela violência desbocou nessa vastidão de caos, dor. e sangue? Porque nada sustentou? 

Porque?