Seja inadequada.
Eu me daria esse comando — se fosse possível voltar ao útero de minha mãe, às vozes da infância, ao instante exato em que meu avô partiu, em 2008.
Antes de seguir, preciso me reconhecer: tem sido profundamente recompensador me enxergar na vida.
Antes de escrever, eu havia me proposto a uma hora de leitura noturna. Lia Você Pode Fazer a Diferença, de Stacey Abrams, quando algo me atravessou. A sensação descrita por ela era minha também — uma memória compartilhada entre corpos pretos e dissidentes, mas com destinos diferentes.
A leitura me acendeu o desejo de escrever. No mesmo instante, censurei o impulso. Recolhi as mãos. Repreendi o corpo e a mente que ousaram desejar antes da hora marcada.
Li mais uma linha, e então me ouvi: “Olha você sendo rígida consigo? Cadê a gentileza de entender que o corpo também pensa e deseja? Por que negar o que pulsa?”
Ri. E vim escrever.
Ao pegar o celular, lembrei do blogger. Fui procurar o aplicativo, não estava instalado. Recriminei-me novamente — sabotando o próprio desejo de escrever. Decidi anotar no bloco de notas. O título já existia em mim: Oi, Bianca.
Fui conferir: o primeiro foi escrito em 15 de novembro de 2023; o segundo, em 27 de outubro de 2024; e hoje, 26 de setembro de 2025, volto para abraçar as Biancas que fui — e a que estou sendo.
Percebo agora que nada disso é acaso. Nenhuma raiz tem limite de profundidade.
17 de setembro: aniversário de meu avô.
18 de setembro: minha iniciação no Àṣẹ.
24 de novembro de 2008: a partida dele.
Outubro, entre nascer e morrer, é portal ancestral.
Inconscientemente, esse tempo age em mim: passado, presente e futuro se curvam num mesmo ponto. Agora consciente, entendo que o sentir do passado se transforma, sem precisar voltar no tempo.
As vezes em que me senti inadequada, hoje as acolho. Dou colo à Bianca que não sabia distinguir se a inadequação era dela — ou do racismo que a queria contida, educada, menos viva.
A Bianca de hoje sabe: há uma diferença abissal entre ser inadequada e ser feita inadequada.
E, sabendo disso, me pergunto: se os ciclos existem para serem vividos, o que faço para não repeti-los do mesmo modo?
Respondo: cultivo o sentir.
O sentir é a direção. É ele que nutre os caminhos e sustenta os passos.
Seja firme, Bianca\Ọtógundé.
Seja e ame você.
Seja inadequada.
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