Escrevivências

quarta-feira, 17 de dezembro de 2025

É de um Abiã que se faz uma Iyá: como forjar um terreiro com a sua consciência? Meu Manifesto

 sobre destino, asé e condução.


Eu sou o meu terreiro desde o dia em que nasci.
Antes do nome, antes da iniciação, antes mesmo de saber.
O corpo já carregava destino, sopro de Olódùmarè e o pacto ancestral do que eu vim ser.

No Candomblé, o saber popular ensina: é de um Abiã que se faz um pai ou uma mãe de santo.
Antes do Ìyàwó, existe o Abiã. Antes da forma, existe o chamado. Antes da confirmação coletiva, existe o destino que respira desdo primeiro suspiro.

A iniciação não cria uma Iyá.
Ela organiza, forja, legitima e dá forma coletiva a algo que já existia, por aproximação contínua com o destino. Isso só é possível no tempo — e o tempo não é linha reta: ele é transversal, circular.

Hoje eu afirmo isso com nitidez porque foi o asé que me convocou a me olhar por inteira.

Nasci prematura, com sete meses. Um corpo que chegou antes do tempo para a ciência mas que não permaneceu sequer trinta minutos dentro de uma incubadora. Cresci, segui, me fortaleci — mas ainda hoje, em alguns momentos, preciso reaprender a respirar, retorno para incubadora.

Essa experiência lapidou o meu olhar sobre mim e também o olhar das pessoas ao meu redor, inclusive os julgamentos que dele derivam. O conteúdo muda tudo. O tempo segue contínuo, circular. E hoje eu compreendo: a iniciação não cria uma Iyá — ela a revela no tempo certo.

Ser Abiã, ser Ìyàwó, tornar-se Egbón, receber cargos e, por fim, o Deká: essa é a caminhada pela qual, tradicionalmente, se faz um pai ou uma mãe de santo no Candomblé no Brasil.
Tudo isso é fundamental. São marcos de responsabilidade, pertencimento, crescimento e rigor ético — como o bambu que enverga, mas não parte.

Ainda assim, o que hoje eu enxergo e sinto é que o terreiro nasceu comigo.
Há algo profundamente dual nessa experiência: ser Iyá é um dos caminhos por onde o meu destino se expressa, mas não é o único lugar onde ele habita. Ambas as afirmações são verdadeiras e estruturantes. O que se transformou ao longo do tempo foi a experiência de seguir no asé apesar de, a consciência que se ampliou, o nível de vigilância e o compromisso assumido. 

Quando isso muda, o tamanho muda. A régua passa a ter outras medidas.

Hoje, aos 34 anos de idade, com quinze anos de iniciada e com obrigação de 14 anos paga neste setembro de 2025, eu declaro um desejo: forjar um terreiro atento à violência.

Não porque a violência seja um tema abstrato, mas porque ela está profundamente registrada no meu corpo, na minha memória e na minha vivência de asé\vida — desde quando eu ainda era Abiã, desde quando eu nem sabia que tinha vindo a este mundo para ser Iyá.

As violências que eu conheci não terão lugar no meu terreiro.
Isso não é ingenuidade. Comunidades de terreiro são feitas de pessoas. Pessoas erram, tensionam, atravessam limites, repetem padrões. Quem é de terreiro conhece histórias, conflitos, burburinhos e enredos que, a depender da intensidade, exigem intervenção, escuta, transformação e, muitas vezes, firmeza de quem conduz — seja no campo do visível e material, seja no campo do invisível, da fé e da crença. Nenhum terreiro é imune. Terreiro é também chão, é gente, é raiz.

O exercício aqui não é idealizar o sagrado.
É sustentar o viver.

Conviver exige um exercício diário de autoconhecimento para lidar com as dores e as delícias de existir — de ser Bianca Menezes e de ser Otógundê, Iyálòrìṣà Otógundê.

Reconhecer o que há de força e de limite em mim é o que me permite cuidar, nutrir e sustentar o que tenho condições de ser. e se é assim comigo no minimo devo colaborar para que seja assim também para o outro. Porque eu reconheço que o asé circula dentro da sociedade e com a sociedade. Eu não apenas estudei a vida social: eu vivo nela. As questões estruturais, as pressões, os afetos, as disputas e a humanidade atravessam a história que cada um constrói. O que está em jogo é tecer os rumos da própria vida — e isso é inegociável, inquebrável, implacável. Isso é o asé, é ori em dialogo com seu destino. 

A diferença está no método.

No que se transforma.
No que se tem condições de repetir e no que se escolhe não repetir. A partir do instante da decisão, tudo passa a ser novo — e o novo sempre nasce do velho. O que se transforma em conduta e o que precisa ser interrompido.

Ser Iyá não me retira a humanidade — me convida a assumi-la.
Não sou melhor nem pior que ninguém. Sou uma mulher que nasceu com esse destino e escolheu não converter dor em ferramenta de poder. Meu compromisso é não naturalizar práticas que adoecem, não silenciar abusos e não confundir autoridade com violência.

Meu asé é humano.
Meu sagrado é vivo.

Para mim, o meu tecer é um desaguar, terreiro de condomblé é um espaço potencializador, onde todos possam existir como são, sabendo que as interações geram saldos positivos e negativos — energias complementares — porque, assim como na física, é do encontro consciente dos polos que a luz se acende.

Sigo com a inquietação necessária de erguer pontes indestrutíveis entre o que eu fui, o que eu sou e o que escolho não ser mais. Para permanecer aberta ao tempo, ao que ainda posso vir a ser, porque enquanto meu coração bate, ele é a bússola que me orienta a simplesmente ser — e a existir em harmonia com o que reconheço, nomeio e conheço em mim.

Iyá Otogunde - Manifesto (2025)
Menezes, Bianca (2025)

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