Escrevivências

quarta-feira, 8 de abril de 2026

⭐Entre ciclos, obrigações e aprendizagens: o que permanece quando eu me torno eu?

Estamos em abril. E, contando a partir de hoje, faltam vinte dias para o meu aniversário de 35 anos de idade, e sinto um aprendizado diferente se movimentando em mim. Não é algo súbito — é uma compreensão que veio se acumulando com o tempo, como aquelas sínteses de Paulo Freire sobre refletir, agir, refletir de novo…


Ser um movimento que meu corpo dança, independente do nível de consciência da Bianca quando tinha 14, 22, 28 ou qualquer outra idade antes desses 35 anos que estão logo ali para chegar, ter sido uma dança e uma música conhecida… algumas dessas repetições conscientes a Bianca de agora tem feito. E aí passo a reconhecer um nascer da vida que está na possibilidade de enxergar o que mudou em mim, o que se deslocou, o que amadureceu.


Este abril tem me convocado a fazer esse balanço de transformação. Ter 35 anos não é apenas uma marca cronológica seguindo o calendário ocidental — é também a confirmação de que eu não estou no mesmo lugar de antes, e que cada ciclo me empurra para uma reorganização interna. Às vezes, é só quando o corpo se aproxima de uma data simbólica que ele entende o que já estava sendo construído por dentro e aí dar o próximo passo.


Curioso é que esse ano ainda tem setembro, e quando esse tempo chegar eu completarei dezesseis anos de iniciada. E essa repetição anual de celebrar mais um ano em que reafirmo a minha escolha de me iniciar é a mesma, mas hoje se apresenta com uma densidade nova: porque será a primeira vez que chego a essa marca com todas as minhas obrigações pagas (faltando apenas a de vinte e um anos) e com a sensação real de que ocupo o meu lugar por inteiro. Para ser ainda mais honesta, eu sinto isso desde que entrei no Oladeji — mas, quando paguei a obrigação dos quatorze anos no Ilé Àṣẹ Ibà Oladeji İjíomi, algo em mim assentou. Não uma certeza rígida, mas um aprendizado profundo: estou exatamente onde eu deveria estar.


E é desse lugar que venho pensando no que são princípios, valores e ética para mim. Porque, olhando para este momento da minha vida, percebo que meus aprendizados não são intelectuais ou abstratos — eles são práticos, relacionais, espirituais. Eles me lembram que cada pessoa só pode responder por aquilo que suas próprias escolhas exigem dela. E que aquilo que me cabe sustentar é diferente daquilo que cabe ao outro, ainda que estejamos do mesmo lado, no mesmo espaço, na mesma história.


Esse movimento tem aparecido nas pequenas coisas: em relações profissionais, em conversas, em decisões cotidianas. São situações que me fazem reconhecer a forma como eu compreendo o mundo: com tempo, respeito, responsabilidade, verdade e consistência. E também me fazem ver que a minha régua nasce das experiências que atravessaram o meu corpo — não das expectativas externas que tentam me dizer quem devo ser.


Talvez essa seja a principal marca dessa fase que se aproxima: entender que meu aprendizado é a minha bússola. Que crescer não é apenas acumular anos, mas compreender o que cada ano me pediu. Que ocupar a cadeira de Ìyá não é só sentar, mas aprender a sustentar o lugar físico e espiritual que ela implica. Que construir o terreiro de Ogum é também construir a mim mesma em movimento, numa ética que reconhece que eu e o outro vivemos processos diferentes, mesmo quando caminhamos lado a lado.


Aguardo a chegada oficial dos 35, mas já os sinto como meu caminho do meio da vida, porque, a partir dos meus 34 anos, ainda há espaço na minha vida que me caiba — e isso ser o meu caminho possível para um novo tempo. Porque o futuro é ancestral, a pedagogia é circular, as aprendizagens sustentam as histórias e as tradições, e Mãe Estela de Oxóssi, ancestral, nos ensina sobre o tempo ser o agora.


Nesse mesmo tempo presente que o mês de abril tem me convocado a refletir — e desses 34 quase 35 anos de idade — eu carrego comigo o que esses dezesseis anos de iniciação me ensinaram: que obrigações rituais nunca são apenas rituais — são também lembretes vivos sobre princípios. E cada princípio exige presença, inteireza, responsabilidade e honestidade comigo mesma.


No fundo, minha síntese é simples:

seguir.

Seguir aprendendo, refletindo, transformando, reorganizando.

Seguir honrando o que veio antes e o que chega agora.

Seguir sustentando quem sou, porque este momento da vida finalmente me mostra — com maturidade, com história, com axé — que o lugar onde estou é exatamente o que me cabe neste agora.

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