Escrevivências

quarta-feira, 6 de maio de 2026

Desejo não se inventa: trajetória, memória e fundamento de um caminho sacerdotal, político e humano

Existem caminhos que a gente escolhe; outros simplesmente nos escolhem.

E quando eu digo que desejo não se inventa, é porque reconheço que algumas direções da vida não são produzidas na superfície das circunstâncias. Elas vêm de antes de nós. Dos que vieram antes, dos que sustentam nossos passos no invisível e do compromisso de destino que o orí guarda.

É nesse encontro entre o que me atravessa e o que eu construo que minha história se faz: como mulher preta, lésbica, gorda, como pessoa humana, como iyalorixá, como militante, como estudante, como coordenadora de projetos, como aprendiz, filha, irmã, amiga, esposa, tia, sobrinha, NETA... como alguém que segurou a vida por todos os lados até que ela mesma se reorganizasse.

Foi desse caminho que nasceu o Iya Convoca.

Não como invenção.
Mas como consequência.

O Iya Convoca nasce da necessidade de alinhar espiritualidade, política, formação, território, ancestralidade e transformação social dentro de um mesmo corpo de existência. Nasce do entendimento de que minha vida nunca coube em caixas separadas.

Porque quem milita também sente.
Quem cuida de terreiro também produz pensamento.
Quem sustenta projetos também sustenta afetos.
Quem vive o cotidiano das estruturas sociais e o capitalismo também pode sonhar com futuros coletivos.

Minha trajetória nunca aconteceu de forma linear. Sempre precisei lidar com escassez — de tempo, de recurso, de acolhimento, de estrutura. E talvez tenha sido justamente essa escassez que, até recentemente, eu ainda recorria às aprendizagens que esse tempo escasso me orientou a tecer — caminhos que hoje já não me servem mais.

Quando entrei na UFBA, não foi apenas um ato acadêmico. Foi sobrevivência. Foi enfrentamento ao racismo. Foi atravessar um espaço que historicamente nem sempre foi pensado para existências como a minha.

Em 2012, junto com outras pessoas incríveis, participei da fundação da (RE)cepção (UN)ificada (IN)terdisciplinar dos Bacharelados Interdisciplinares, a @REUNIBI. Foi ali que comecei a compreender que universidade não é apenas sala de aula: é disputa, construção coletiva e chão político.

Ao longo dos anos no movimento estudantil da UFBA, aprendi que o ensino público de qualidade não é presente. É algo que se sustenta diariamente, inclusive quando dizem que a gente não vai conseguir chegar até o fim.

E talvez por isso eu siga profundamente atravessada pela compreensão freireana de que a educação não transforma o mundo sozinha — ela transforma pessoas, e pessoas transformam o mundo. Porque eu sou fruto dessa transformação.

No meu caminho religioso, o processo também foi de busca por coerência.

Passei por dois diferentes espaços desde que me iniciei em 2010, até encontrar, em 2023, o terreiro onde meu orí finalmente reconheceu pertencimento: Ilé Àșe Ibà Oladeji Ijíomi.

Porque até então, desde 2020 (ano que saí da última casa de candomblé que fiz parte), tinha firme na cabeça que não queria apenas frequentar um espaço espiritual: o meu desejo era por uma comunidade que, dentro do possível e praticável, fosse um território que preza a coerência entre fundamento, cuidado e humanidade.

E coerência não é conforto. Exercitá-la exige.

Candomblé é continuidade, tradição, hierarquia e ancestralidade. Mas ancestralidade não pode ser usada como justificativa para violência, autoritarismo, transfobia, racismo ou silenciamento de corpos dissidentes.

Depois da minha obrigação de 14 anos de iniciada, realizada em setembro de 2025, algo dentro de mim se reorganizou profundamente:

Passei a me reconhecer como parte de uma geração sacerdotal, e eu compreendo, a partir da minha própria experiência, que respeito não se constrói pelo medo. Autoridade não é licença para violentar. E tradição não existe para aprisionar — existe para sustentar enquanto crescemos e caminhamos, a cada passo.

Meu corpo finalmente alcançou uma informação que cognitivamente eu já sabia desde 2020: meu destino nesta terra também passava pelo sacerdócio enquanto iyalorixá.

E foi através da linguagem de amor dos meus orixás, especialmente de Oxalá, Ogun, Iansã e Osun — que experimentei um sabor de acolhimento que nunca havia vivido. Um sabor de amor gerador de colo, húmus e companhia. Um amor próprio de quem sente orixá vivo e verdadeiro em sua vida.

Desse momento em diante, essa água que habita meu corpo começou a fervilhar.

E esse movimento interno me fez compreender que eu precisava alinhar:

  • minha experiência militante,

  • minha formação acadêmica,

  • minha vivência sacerdotal,

  • minha trajetória como mulher preta,

  • e meu compromisso coletivo,

dentro de um projeto que carregasse quem eu sou por inteiro. Sob a égide da canção de Sandy: “Eu só preciso ser”. (Você também viu?)

Assim nasceu também o Iya Convoca.

O projeto surge inicialmente com a proposta de construção de um Grupo de Estudos chamado Encruzilhadas, entendendo a formação como prática inseparável de axé, da vida e da transformação interna, externa e social.

Profundamente inspirada na educação popular de Paulo Freire, este meu movimento parte da compreensão da vida como ação–reflexão–ação.

Não à toa, as encruzilhadas aqui não são apenas metáforas. São metodologia. São espaço de encontro. São lugar de decisão, de escuta, de construção coletiva e de travessia.

Porque estudar também é transformar.

E transformar exige olhar para dentro e para fora ao mesmo tempo.

Inclusive, meus estudos mais recentes têm me feito perceber que muito daquilo que aprendi dentro das vivências de terreiro — desde a infância, através da minha família tanto materna quanto paterna, e das experiências atravessadas pela ancestralidade — dialoga profundamente com reflexões filosóficas, políticas e acadêmicas sobre existência, território, ética e humanidade.

Muito do que os povos de terreiro sustentaram pela oralidade durante gerações também é tecnologia ancestral de organização da vida. Acredito que isso que estou dizendo, em alguma medida, se relacione com as valiosas contribuições de Ailton Krenak, em especial em seu livro Ideias para adiar o fim do mundo.

E talvez seja justamente tudo isso que mais me atravessa hoje: compreender que ancestralidade também é lugar de elaboração de pensamento, metodologia, pedagogia e engenharia de existência.

Foi nesse percurso que percebi também que precisava parar de tentar me adaptar a espaços que diminuíam minha inteireza.

Eu precisava construir o meu.

Mas não um “meu” isolado.

E sim um caminho onde outras pessoas também pudessem se reconhecer.

Por isso o Iya Convoca é, antes de tudo, uma morada coletiva. Um habitat de encontro para pessoas que desejam construir pontes entre espiritualidade, formação, território, política, cuidado e transformação social.

Toda minha trajetória me ensinou que meu trabalho, minha fé e minha luta política não são caixas separadas.

Quem lidera projetos, quem forma pessoas, quem cuida de terreiro, quem organiza a vida apesar do capitalismo, quem sustenta afetos, quem cria oito gatos, quem segue mesmo cansada — tudo isso sou eu.

Inteira.

E é essa inteireza que sustenta o Iya Convoca.

O Iya Convoca não é apenas um projeto.

É síntese.
É continuidade.
É gesto de futuro.

É resposta à pergunta:
“O que eu faço com tudo que eu me tornei?”

Eu faço caminho.
Faço axé.
Faço formação.
Faço futuro.

E sigo compreendendo que ancestralidade não se faz com autoritarismo; se faz com responsabilidade.

Que tradição não é prisão.
É raiz.

E raiz não existe para segurar.
Existe para sustentar enquanto cresce.

No fim das contas, minha vida inteira é uma conversa entre o que me precede, o que me atravessa e o que escolho construir.

E é com essa consciência que sigo:
alinhando destino, estudo, política, afeto, fé e ação cotidiana.

Porque se desejo não se inventa, missão também não.

A gente apenas escuta, reconhece e caminha.

Ogunhê Patacuri
Bianca Menezes — Ìyá Ọtógundé(2026)

Um comentário:

  1. Bibi, esse desaguar-texto me arrebatou de uma maneira que não esperava sentir hoje. Há algum tempo os ventos emaranharam nossos passos e lentamente (e ainda que à distância ) pude ver você desabrochando , se reconhecendo, respeitando sua trajetória e ressignificando suas dores. Iya Convoca são os muitos e muitas que você carrega em cada greta do seu corpo e história e sinto daqui a vida desse projeto. Vida longa a você e à sua mente e vitalidade. Que o Vodun permita que a prosperidade faça morada em tudo o que for tocado por ti. Sua benção, minha amiga, irmã de fé e sacerdotisa.

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