Dia do Fico desde 9 de janeiro de 1822
O Dia do Fico marca, na história oficial, um gesto político de permanência. Mas permanecer não é, necessariamente, desobedecer apenas.
Ficar é um ato de escolha.Em certos contextos, sobreviver ainda é o mínimo que se pode alcançar.
Ampliar escolhas exige consciência — das necessidades que nos atravessam e das implicações que assumimos.
Cada pessoa vive esse processo de modo singular, mas o processo é atravessado, vivido e influenciado na relação com o coletivo
Entre setembro e dezembro de 2025, desaguei em um tempo profundo de recolhimento.
Os anos anteriores — 2024 e parte de 2023 — foram intensamente desgastantes por diversos motivos.
Esse recolhimento não foi ausência do mundo, nem negação da vida coletiva.
Foi silêncio como ferramenta.
Um silêncio necessário para reorganizar prioridades, escutar limites e compreender, com mais honestidade, o que ainda fazia sentido sustentar — e o que já não podia mais orientar minhas escolhas.
O ponto alto desse processo foi, pela primeira vez em trinta e quatro anos de vida, ter escolhido ficar.
Sustentei o desejo de, no Natal e no Ano Novo, permanecer sozinha em casa.
Não porque rejeite datas comemorativas.
Eu gosto de família, gosto do barulho, da confusão, dos gritos, do caos amoroso que só vínculos longos e familiares conseguem produzir.
Gosto da vida compartilhada.
Mas há momentos em que o cuidado exige pausa.
E há pausas que não são fuga: são preparação.
Durante muito tempo, permaneci em contextos familiares não por desejo, mas por falta de alternativa. Em família, os laços são densos, históricos, sanguíneos. Nem sempre permitem afastamentos simples. Houve períodos em que eu quis estar. Houve outros em que eu apenas fui. E houve aqueles em que, mesmo ferida, rejeitada ou deslocada, eu me forcei a permanecer, acreditando que pertencimento precisava ser sustentado a qualquer custo.
Hoje reconheço: essa permanência também foi sobrevivência.
Mas sobreviver não é viver
Com o tempo — e, sobretudo, com a vivência do axé — aprendi que família não é apenas herança biológica. Ao iniciar, a pessoa passa a habitar dois mundos familiares: o da consanguinidade, com suas histórias, afetos, faltas e interferências; e o da família de axé, que inaugura outro tipo de vínculo familiar, outra ética de cuidado, outra responsabilidade coletiva.
Esses mundos não se anulam. Eles coexistem. E coexistir exige consciência.
Hoje, como Ìyálòrìṣà, tenho diante de mim a possibilidade concreta de fundar novas dinâmicas familiares. Isso não significa negar o que recebi nem apagar minha história. Significa escolher, com lucidez, o que seguirá comigo e o que não terá continuidade na minha prática, mesmo que um dia tenha sido sagrado.
Não existe manual para isso.
Existe memória.
Existe desejo.
Existe orí.
Existe presença.
Cuidar de mim, hoje, não é lutar contra o impossível. É reconhecer o possível. Validar as condições reais que tenho para existir com dignidade, inteireza e responsabilidade. É a partir desse chão — humano, limitado e concreto — que se constroem pontes para aquilo que, agora, ainda parece distante.
O impossível, muitas vezes, é apenas o limite do nosso campo de visão.
E isso não é fracasso.
É condição humana.
Ser filha, ser irmã, ser tia, ser neta, ser sobrinha, ser prima, ser mãe — de sangue, de axé ou de ambos — não é destino fixo. É um campo de escolhas contínuas. Escolhas que precisam respeitar o tempo interno, o cansaço legítimo e o direito de não se violentar em nome de expectativas alheias.
Abrir espaço para o cansaço não é desistir da vida. É criar condições para continuar vivendo.
Por isso, a pergunta que tem orientado minhas decisões não é “o que esperam de mim?”, mas outra, mais radical e necessária:
o que eu tenho feito com o tempo que eu tenho?
Essa pergunta só cabe a mim.
Ao outro, ela só pode existir como convite — nunca como exigência. Cada pessoa só pode decidir o que fazer com o próprio tempo depois de reconhecer seus limites, seus desejos e seu destino possível.
No Dia do Fico, escolho permanecer onde há verdade.
Não por obrigação.
Não por medo.
Mas por responsabilidade com a minha própria existência.
Em 2026, sigo a partir desse lugar.
Sem promessas grandiosas.
Sem idealizações vazias.
Com prática possível.
A regra é simples e inegociável:
eu só preciso ser.
O resto se constrói no tempo.
Com cuidado.
Com presença.
Com consciência.