Escrevivências

sexta-feira, 9 de janeiro de 2026

Ficar: escolha, tempo e o direito de viver

 Dia do Fico desde 9 de janeiro de 1822

O Dia do Fico marca, na história oficial, um gesto político de permanência. Mas permanecer não é, necessariamente, desobedecer apenas.

Ficar é um ato de escolha.
Em certos contextos, sobreviver ainda é o mínimo que se pode alcançar.
Ampliar escolhas exige consciência — das necessidades que nos atravessam e das implicações que assumimos.

Cada pessoa vive esse processo de modo singular, mas o processo é atravessado, vivido e influenciado na relação com o coletivo

Entre setembro e dezembro de 2025, desaguei em um tempo profundo de recolhimento.
Os anos anteriores — 2024 e parte de 2023 — foram intensamente desgastantes por diversos motivos.
Esse recolhimento não foi ausência do mundo, nem negação da vida coletiva.
Foi silêncio como ferramenta.
Um silêncio necessário para reorganizar prioridades, escutar limites e compreender, com mais honestidade, o que ainda fazia sentido sustentar — e o que já não podia mais orientar minhas escolhas.

O ponto alto desse processo foi, pela primeira vez em trinta e quatro anos de vida, ter escolhido ficar.
Sustentei o desejo de, no Natal e no Ano Novo, permanecer sozinha em casa.
Não porque rejeite datas comemorativas.
Eu gosto de família, gosto do barulho, da confusão, dos gritos, do caos amoroso que só vínculos longos e familiares conseguem produzir.
Gosto da vida compartilhada.
Mas há momentos em que o cuidado exige pausa.
E há pausas que não são fuga: são preparação.

Durante muito tempo, permaneci em contextos familiares não por desejo, mas por falta de alternativa. Em família, os laços são densos, históricos, sanguíneos. Nem sempre permitem afastamentos simples. Houve períodos em que eu quis estar. Houve outros em que eu apenas fui. E houve aqueles em que, mesmo ferida, rejeitada ou deslocada, eu me forcei a permanecer, acreditando que pertencimento precisava ser sustentado a qualquer custo.

Hoje reconheço: essa permanência também foi sobrevivência.
Mas sobreviver não é viver

Com o tempo — e, sobretudo, com a vivência do axé — aprendi que família não é apenas herança biológica. Ao iniciar, a pessoa passa a habitar dois mundos familiares: o da consanguinidade, com suas histórias, afetos, faltas e interferências; e o da família de axé, que inaugura outro tipo de vínculo familiar, outra ética de cuidado, outra responsabilidade coletiva.

Esses mundos não se anulam. Eles coexistem. E coexistir exige consciência.

Hoje, como Ìyálòrìṣà, tenho diante de mim a possibilidade concreta de fundar novas dinâmicas familiares. Isso não significa negar o que recebi nem apagar minha história. Significa escolher, com lucidez, o que seguirá comigo e o que não terá continuidade na minha prática, mesmo que um dia tenha sido sagrado.

Não existe manual para isso.
Existe memória.
Existe desejo.
Existe orí.
Existe presença.

Cuidar de mim, hoje, não é lutar contra o impossível. É reconhecer o possível. Validar as condições reais que tenho para existir com dignidade, inteireza e responsabilidade. É a partir desse chão — humano, limitado e concreto — que se constroem pontes para aquilo que, agora, ainda parece distante.

O impossível, muitas vezes, é apenas o limite do nosso campo de visão.
E isso não é fracasso.
É condição humana.

Ser filha, ser irmã, ser tia, ser neta, ser sobrinha, ser prima, ser mãe — de sangue, de axé ou de ambos — não é destino fixo. É um campo de escolhas contínuas. Escolhas que precisam respeitar o tempo interno, o cansaço legítimo e o direito de não se violentar em nome de expectativas alheias.

Abrir espaço para o cansaço não é desistir da vida. É criar condições para continuar vivendo.

Por isso, a pergunta que tem orientado minhas decisões não é “o que esperam de mim?”, mas outra, mais radical e necessária:
o que eu tenho feito com o tempo que eu tenho?

Essa pergunta só cabe a mim.
Ao outro, ela só pode existir como convite — nunca como exigência. Cada pessoa só pode decidir o que fazer com o próprio tempo depois de reconhecer seus limites, seus desejos e seu destino possível.

No Dia do Fico, escolho permanecer onde há verdade.
Não por obrigação.
Não por medo.
Mas por responsabilidade com a minha própria existência.

Em 2026, sigo a partir desse lugar.
Sem promessas grandiosas.
Sem idealizações vazias.
Com prática possível.

A regra é simples e inegociável:
eu só preciso ser.

O resto se constrói no tempo.
Com cuidado.
Com presença.
Com consciência.


quarta-feira, 17 de dezembro de 2025

É de um Abiã que se faz uma Iyá: como forjar um terreiro com a sua consciência? Meu Manifesto

 sobre destino, asé e condução.


Eu sou o meu terreiro desde o dia em que nasci.
Antes do nome, antes da iniciação, antes mesmo de saber.
O corpo já carregava destino, sopro de Olódùmarè e o pacto ancestral do que eu vim ser.

No Candomblé, o saber popular ensina: é de um Abiã que se faz um pai ou uma mãe de santo.
Antes do Ìyàwó, existe o Abiã. Antes da forma, existe o chamado. Antes da confirmação coletiva, existe o destino que respira desdo primeiro suspiro.

A iniciação não cria uma Iyá.
Ela organiza, forja, legitima e dá forma coletiva a algo que já existia, por aproximação contínua com o destino. Isso só é possível no tempo — e o tempo não é linha reta: ele é transversal, circular.

Hoje eu afirmo isso com nitidez porque foi o asé que me convocou a me olhar por inteira.

Nasci prematura, com sete meses. Um corpo que chegou antes do tempo para a ciência mas que não permaneceu sequer trinta minutos dentro de uma incubadora. Cresci, segui, me fortaleci — mas ainda hoje, em alguns momentos, preciso reaprender a respirar, retorno para incubadora.

Essa experiência lapidou o meu olhar sobre mim e também o olhar das pessoas ao meu redor, inclusive os julgamentos que dele derivam. O conteúdo muda tudo. O tempo segue contínuo, circular. E hoje eu compreendo: a iniciação não cria uma Iyá — ela a revela no tempo certo.

Ser Abiã, ser Ìyàwó, tornar-se Egbón, receber cargos e, por fim, o Deká: essa é a caminhada pela qual, tradicionalmente, se faz um pai ou uma mãe de santo no Candomblé no Brasil.
Tudo isso é fundamental. São marcos de responsabilidade, pertencimento, crescimento e rigor ético — como o bambu que enverga, mas não parte.

Ainda assim, o que hoje eu enxergo e sinto é que o terreiro nasceu comigo.
Há algo profundamente dual nessa experiência: ser Iyá é um dos caminhos por onde o meu destino se expressa, mas não é o único lugar onde ele habita. Ambas as afirmações são verdadeiras e estruturantes. O que se transformou ao longo do tempo foi a experiência de seguir no asé apesar de, a consciência que se ampliou, o nível de vigilância e o compromisso assumido. 

Quando isso muda, o tamanho muda. A régua passa a ter outras medidas.

Hoje, aos 34 anos de idade, com quinze anos de iniciada e com obrigação de 14 anos paga neste setembro de 2025, eu declaro um desejo: forjar um terreiro atento à violência.

Não porque a violência seja um tema abstrato, mas porque ela está profundamente registrada no meu corpo, na minha memória e na minha vivência de asé\vida — desde quando eu ainda era Abiã, desde quando eu nem sabia que tinha vindo a este mundo para ser Iyá.

As violências que eu conheci não terão lugar no meu terreiro.
Isso não é ingenuidade. Comunidades de terreiro são feitas de pessoas. Pessoas erram, tensionam, atravessam limites, repetem padrões. Quem é de terreiro conhece histórias, conflitos, burburinhos e enredos que, a depender da intensidade, exigem intervenção, escuta, transformação e, muitas vezes, firmeza de quem conduz — seja no campo do visível e material, seja no campo do invisível, da fé e da crença. Nenhum terreiro é imune. Terreiro é também chão, é gente, é raiz.

O exercício aqui não é idealizar o sagrado.
É sustentar o viver.

Conviver exige um exercício diário de autoconhecimento para lidar com as dores e as delícias de existir — de ser Bianca Menezes e de ser Otógundê, Iyálòrìṣà Otógundê.

Reconhecer o que há de força e de limite em mim é o que me permite cuidar, nutrir e sustentar o que tenho condições de ser. e se é assim comigo no minimo devo colaborar para que seja assim também para o outro. Porque eu reconheço que o asé circula dentro da sociedade e com a sociedade. Eu não apenas estudei a vida social: eu vivo nela. As questões estruturais, as pressões, os afetos, as disputas e a humanidade atravessam a história que cada um constrói. O que está em jogo é tecer os rumos da própria vida — e isso é inegociável, inquebrável, implacável. Isso é o asé, é ori em dialogo com seu destino. 

A diferença está no método.

No que se transforma.
No que se tem condições de repetir e no que se escolhe não repetir. A partir do instante da decisão, tudo passa a ser novo — e o novo sempre nasce do velho. O que se transforma em conduta e o que precisa ser interrompido.

Ser Iyá não me retira a humanidade — me convida a assumi-la.
Não sou melhor nem pior que ninguém. Sou uma mulher que nasceu com esse destino e escolheu não converter dor em ferramenta de poder. Meu compromisso é não naturalizar práticas que adoecem, não silenciar abusos e não confundir autoridade com violência.

Meu asé é humano.
Meu sagrado é vivo.

Para mim, o meu tecer é um desaguar, terreiro de condomblé é um espaço potencializador, onde todos possam existir como são, sabendo que as interações geram saldos positivos e negativos — energias complementares — porque, assim como na física, é do encontro consciente dos polos que a luz se acende.

Sigo com a inquietação necessária de erguer pontes indestrutíveis entre o que eu fui, o que eu sou e o que escolho não ser mais. Para permanecer aberta ao tempo, ao que ainda posso vir a ser, porque enquanto meu coração bate, ele é a bússola que me orienta a simplesmente ser — e a existir em harmonia com o que reconheço, nomeio e conheço em mim.

Iyá Otogunde - Manifesto (2025)
Menezes, Bianca (2025)

quinta-feira, 4 de dezembro de 2025

20.10.2020

QUEM NÃO TEM MEDO?
MEUS MEDOS SÃO VIVOS, TEM CORPO e TEM INTENÇÃO.

quem não tem desejo?
quem não tem sonhos?
quem?

quem consegue ter respostas pra todas as perguntas que diariamente surge?
quem mantém sem abalo a vida, o tempo, o amor?
quem?

na bagunça a gente rever o prumo, a vista. 

Controlar o medo?

04.11.2019

Não ter medo dos sentimentos que ganham vida dentro de si é um exercício continuo de rever-se porque com o passar do tempo há verdades que já não cabem mais e nem se entrelaça com a realidade da sua única existência no mundo. Embora exista coisas, pessoas, energias, vontades, fervuras que nos impulsionem a extravasar a cada medida vivida, a síntese que surge da razão e não da emoção tende a nos bagunçar. 

Porque ora ela nos provoca a mudar de forma radical e verdadeira, ora ela nos exige reconhecer quem somos a partir da capacidade que temos de agir, fazer escolhas, sentir e reagir. E as vezes conviver com essa versão transparente de nós mesmo ativa a nossa vulnerabilidade...nos expõem...e isso por vezes assusta e tem proporções gigantes... testada ao limite de todas as provocações, de todos os cortes e todas as quebradas, a permanência daquilo que se acredita e do que você tem condições de ser tornar-se uma questão de luta diária e isto constitui um fluxos de oscilações que sem o filtro do que te faz seguir, as coisas perdem o sentido, o combustível é esvaziado, a musica perde a harmonia.

Agimos diferentes em cada tempo de construção desdo nascimento até o renascimento, é o proposito que a gente escolhe, que nos proporciona o tom, o ritmo e o curso daquilo que nos retroalimenta a plantação feita com os nossos passos determinam a nossa colheita e o acumulo dessa irrigação que aqui chamo de caminhada transcreve os signos do nosso nome, da nossa potencialidade, do nosso lado cruel e do nosso mel.

a responsabilidade da nossa existência está em nós.

Eu. Você. Ele. Nós dois. Nós Duas. Vocês Dois. Nós Três! - 22.06.2015

Afago: Ação de afagar; carinho;carícia;agrado. Afagar o mundo, suas cores cinzas e as cicatrizares. Nutri apenas e sempre os sentimentos que pra ti saudáveis forem. Filtrar ruídos e superar projeções,expectativa.
Seria mais fácil, se fosse possível, lidar apenas com a razão, com logica, com o que é visto? com o que é concreto e faz sentido no mundo real, ou melhor, no mundo do adultos? Talvez. Quem sabe.... Sei que um turbilhão de perguntas rodeiam minha mente. Sobretudo, sobre conexões de vida, de corpo, de alma. Estou me convencendo que esta seja a explicação que mais caiba nesse emaranhado sem fim descrito no titulo.

Individualmente muitas mudanças ocorreram e elas afetam bruscamente a relação coletiva... seja nas duplas ou no trio. Todos os envolvidos percebem isso? Não sei, escrevo por mim, pelo que sinto agora e senti quando tive a oportunidade de compartilhar momentos.Por isso, a minha intuição e interpretação, assumiram  também o outro lado desta conversa e essa é a única verdade absoluta que escrevo.

Nós três... desdo inicio o elo de dois nesse triangulo estiveram seu espaço demarcado, definido, e com limites claro. Muito bem nítido e isso de certo modo foi ajudando a fortalecer os três. Era legal, a sensação de "trupe", o próprio contexto do seu forjamento contribuiu pra essa mágica, pra esse encanto de três, com duas e dois. Mais, ainda nesse contexto houve uma ruptura, uma escolha de lado, uma situação, uma ação, uma reação, uma consequência, um divisor de águas.

Tempo, o avassalador tempo nos forneceu a dor e a delicia de ser quem é. Trouxe distancias das personalidade parecidas de energias dedicadas a lados opostos e a sensação, o incomodo, ou talvez até a constatação de que algo mudou. Não há mais ligação entre dois pontos daquelas três que outrora foram ligados? Dessintonia. "mudamos, não tem como ser como éramos. É simplesmente isso, qualquer outra coisa é imaginação sua e se por a caso você falar comigo e eu não responder, ignore isso. Não te ignorei ou responde por maldade e sim por falta de tempo mesmo." Fecho os olhos e consigo com exatidão ouvir, me recordo da atenção dada ao guardanapo, pois nele, fazia anotações do que precisava ser feito quando chegasse em casa. Naquele fatídico dia eu coloquei no silencioso toda inquietação em relação a gente.

As vezes, algumas coisas se mantém vivas apenas pelo que foi. E neste caso, esforços pra romper esse clima, essa sensação seria nula. Só traria desgastes. Tomei consciência de que deveria seguir, assim como você o fez. Sem lamurias, sem pesares. E penso, ainda que arriscadamente, que se não estivéssemos sido  nós três, nós dois não teria espaço nesse tempo.

Curioso é, hoje perceber que todo os esforços dedicados para enxergar "além" poderia ter sido evitado se o olhar fosse no ato em si. Talvez não existiria sombra de sensações veladas, incômodos inexplicáveis, intervalos tão longos se  estivesse sido esta a visão. Escrevo sem saudosismo e sem vontade de uma maquina do tempo, apenas constato que os estragos não tem reparos, que caminhar ao lado requer passos em um mesmo ritmo. Hoje somos descompassados, desalinhados, nós três, nós dois e nós duas. E quanto a isso, por hora, não há o que fazer e está tudo bem por isso, afinal, tudo acontece como tem de acontecer.



continua escrito em 19/08/2014 ás 18:02, publicado hoje.

A exigência bloqueia a inspiração, o pensar bloqueia a imaginação e cada vez mais vai se tornando  raro descrever sentimento tão intensamente, tão fundo, tão reais, tão espontaneamente...Algo há de acontecer, algo tem que acontecer. Movimentar-se-ei, vida! é apenas isso que te peço porque não tão de repente, saber das coisas ficou chato, ficou insosso...

É um estado de fragilidade disfarçada, isso de não saber verdadeiramente o que se quer. Tu fica vulnerável, a mercê do julgamento do outro, do querer do outro e tudo absolutamente tudo vira um carrossel desgovernado. Gostaria apenas de perceber nesse momento algum sentido que determine, que seja a âncora desse navio de embarque chamado vida.Existe muitas coisas das quais eu sei, tipo, aquelas coisas que a gente não tem dúvida e ás vezes são justamente elas que nos disponibilizam caminhos tortuosos. 

Geralmente as pessoas costumam dizer que a experiência é algo apenas bom, espécie de talismã de vida. fonte de sabedoria... acho que as mesmas esquecem que algumas trazem marcas tão profundas que te aprisionam no medo de sentir de novo, pra evitar qualquer remota possibilidade de reviver aquilo que um dia foi extremamente algoz. E aí, a tal experiência te faz  as vezes manter a distancia, apertar o freio, esconder as chaves e disponibilizar cadeados. E quando a gente percebe determinado fio da meada, ou muita coisa foi perdida ou não foi devidamente vivenciada. E velha lacuna se faz presente além do nó na garganta e o fortalecimento da experiência que previne, que anula, que boicota, cresce e ganha espaço.

Sabe qual foi a ultima pergunta que me fiz sobre você? Depois que dei pause da "disputa" de espaço, o que em  essência te atrai, te move, te consome. Quais são tuas ideias e como elas interagem em sua pratica? Sem drama, sem crise, sem peso. Assim que eu te enxergar nua nesse sentido, estaremos reconectadas. Antes disso não dá, travei porque estou convicta de que a genuína reflexão conduz a pratica e eu ainda enxergo muito do mesmo em coisas que já compartilhamos teorias que supera diversas questões... então estamos em um impasse, em um hiato.

Sinceramente não sei por o desfecho dessa insatisfação, inquietação... por ora, eu sei que hás muitas perguntas para formular porque de concreto mesmo só as interrogações perambulando na mente e isso é péssimo.  Mais, entretanto, contudo, toda via... eu acredito na capacidade de ser e que todas as pessoas do universo a possuem. Eu acredito nisso muito fidedignamente. Somos capazes de ser, de nos tornar aquilo ao qual francamente nos disponibilizamos. Acredito que essa capacidade tem fonte e origem nos exercícios diários que podemos realizar em função daquilo que buscamos. Acredito também que isso exige e condiciona a um passo árduo e exacerbado de enfrentamento com a dor e a delicia de ser o que exatamente se é. E a partir daí trabalhar-se no que compreender ser importante e no que sentir vontade. 

Por mais que as circunstâncias propiciem um desligamento de emoções, lá no âmago, a gente sempre se importa, deseja, tem sonhos, ama, quer amar e ser amada. Pode até não ser confessado, demonstrado, percebido de primeira, nem de terceira... mais é inevitável. Os queres existem, uns chegam a urrar enquanto outros de tão silenciados precisam ser atiçados mais de qualquer forma eles estão lá e é preciso lidar com eles... e se não for nós mesmo? será quem? Ainda que assumir algum querer tenha a possibilidade de desconfigurar o que foi estabelecido no campo do ideal, não entremos em pânico, o que for real basta pois a  ação constrói e a pratica é o critério pra verdade.


domingo, 26 de outubro de 2025

OI, Bianca III

Seja inadequada.


Eu me daria esse comando — se fosse possível voltar ao útero de minha mãe, às vozes da infância, ao instante exato em que meu avô partiu, em 2008.


Antes de seguir, preciso me reconhecer: tem sido profundamente recompensador me enxergar na vida.

Antes de escrever, eu havia me proposto a uma hora de leitura noturna. Lia Você Pode Fazer a Diferença, de Stacey Abrams, quando algo me atravessou. A sensação descrita por ela era minha também — uma memória compartilhada entre corpos pretos e dissidentes, mas com destinos diferentes.


A leitura me acendeu o desejo de escrever. No mesmo instante, censurei o impulso. Recolhi as mãos. Repreendi o corpo e a mente que ousaram desejar antes da hora marcada.


Li mais uma linha, e então me ouvi: “Olha você sendo rígida consigo? Cadê a gentileza de entender que o corpo também pensa e deseja? Por que negar o que pulsa?”


Ri. E vim escrever.


Ao pegar o celular, lembrei do blogger. Fui procurar o aplicativo, não estava instalado. Recriminei-me novamente — sabotando o próprio desejo de escrever. Decidi anotar no bloco de notas. O título já existia em mim: Oi, Bianca.


Fui conferir: o primeiro foi escrito em 15 de novembro de 2023; o segundo, em 27 de outubro de 2024; e hoje, 26 de setembro de 2025, volto para abraçar as Biancas que fui — e a que estou sendo.


Percebo agora que nada disso é acaso. Nenhuma raiz tem limite de profundidade.


17 de setembro: aniversário de meu avô.

18 de setembro: minha iniciação no Àṣẹ.

24 de novembro de 2008: a partida dele.


Outubro, entre nascer e morrer, é portal ancestral.


Inconscientemente, esse tempo age em mim: passado, presente e futuro se curvam num mesmo ponto. Agora consciente, entendo que o sentir do passado se transforma, sem precisar voltar no tempo.


As vezes em que me senti inadequada, hoje as acolho. Dou colo à Bianca que não sabia distinguir se a inadequação era dela — ou do racismo que a queria contida, educada, menos viva.


A Bianca de hoje sabe: há uma diferença abissal entre ser inadequada e ser feita inadequada.


E, sabendo disso, me pergunto: se os ciclos existem para serem vividos, o que faço para não repeti-los do mesmo modo?


Respondo: cultivo o sentir.


O sentir é a direção. É ele que nutre os caminhos e sustenta os passos.

Seja firme, Bianca\Ọtógundé.

Seja e ame você.

Seja inadequada.

domingo, 27 de outubro de 2024

Oi, Bianca II

Descobrir depois de trinta e três anos que ainda é possível te conhecer, mais que isso, ainda é possível ser uma Bianca profundamente nova, recém-nascida. 

Renascer com tudo que o novo unicamente possibilita e com tudo que tão unicamente as vivências registram o tempo vivido.

Bianca você nasceu destinada. 

Você é uma pessoa que mobiliza, é um dos seus dons porque é de nascença, lembra a história da incubadora? De lá pra cá, você mobiliza, sua presença mobiliza, sua conduta mobiliza. São trinta e três anos, mobilizando diuturnamente o mundo, as pessoas, tudo que você toca. 

Como tem sido pra você isso? ao mobilizar o que ainda funciona? o que fazer com a parte da mobilização que já não cabe mais? É possível mobilizar menos? é possível escolher o quanto e o quanto mobilizar? Você se enxerga como uma pessoa que mobiliza? Se sim como é que você avalia ser uma nata mobilizadora? e por fim mais não menos importante você se mobiliza pra você tal qual sua existência mobiliza naturalmente o mundo e as outras pessoas? aaaaa tem algo de novo quando você olha para esse traço da sua trajetória? 

Bianca, desde nascença você também é uma pessoa forte. Mais uma vez a história da incubadora, se manifesta para você com um traço de algo que, de diferentes formas, se manteve em sua vida e fez parte do sua dia-a-dia. Sendo na vida desde o primeiro suspiro uma prematura forte, foi sem sequencia uma criança forte, uma adolescente forte, uma adulta forte até que as violências sofridas a quebrou. 

Bianca então rompeu. desconfigurou-se. A dor alargou-se em dores, porque a cada corte, a cada violência, brutalmente camada de tudo que era conhecido foi comprometida. A solidez deixou de literalmente de existir, o solo foi concretado, e o cinza cristalizou os sentidos, dilacerou com você Bianca.

Mas porque dilacerou? Porque diferente das outras violências que você já passou até aquele ano, aquela violência desbocou nessa vastidão de caos, dor. e sangue? Porque nada sustentou? 

Porque?

quarta-feira, 15 de novembro de 2023

Oi, Bianca.

 


Oi, Bianca. 


Você sempre foi/é algo que se repete e embora de uma forma diferente, permanece sendo exatamente o que você é. 


Você tem sido gigante o tempo todo porque foi preciso ser, pra lidar com tudo que a vida te apresentou, apresenta e apresentará a cada suspiro. 


Você nasceu mas não foi planejada porém isso não significou que você não foi desejada e amanda desda fecundação. Desde seu primeiro lar, o útero de sua mãe. O seu parto Bianca, o dia do seu nascimento já foi tal com você. Mobilizou geral porque tu só tinha 7 messes, e isso exigia um cuidado que lhe foi dado. Seu avô garantiu os recursos pra ter uma incubadora no hospital que você nasceu, porque você por ter nascido prematura, precisava de um tempo na incubadora pra respirar. Mas aí, Bianca, só pra variar, nem nos primeiros momentos de vida você se deu tempo pra respirar porque não ficou nem 30 minutos na incubadora, desceu pro quarto e foi direto de boca no peito de sua mãe pra se alimentar. E mamou, muito e ficou forte. Aliás, ainda mais forte. 


iiiii Bianca, que curioso isso de nascer prematura né?


Porque com quantos anos mesmo você teve uma primeira experiência adulta em sua vida?


Casou,trabalhou, se preocupou contas a pagar, assumiu responsabilidade sobre si e sobre outros?


Foi mais do que filha, neta, sobrinha, irma, namorada, foi uma pessoa na vida que estava atenta pras coisas sobre a vida, que não estão comumente vinculado aquela determinada idade socialmente estabelecida?


Pois bem... meu tempo sempre foi outro. No ciclo da vida é mais frequente que o nascimento ocorra aos 9 meses. Comigo não foi. Espera-se que crianças, na faixa da sua primeira infância, na adolescência até o tempo da idade pra terminar a fase dos estudos do ensino médio, não tenha que executar outra conduta que vá além de estudar, fazer as tarefas da escola e de casa no campo e nível de manter seu quarto limpo, jogar lixo no lixo, acordar cedo pra ir pra escola, obedecer os mais velhos, pai, mãe. Seguir regras mas também ter lazer. Comigo não foi assim. 


Meu tempo sempre foi outro e me dá conta disso, é dar um lugar para minha versão adulta do momento de acolhimento que me alivia. E me.anima pra alcançar em absoluto a paz com a minha história. Com quem eu sou e a multiplicidade que há nisso porque tudo que sou e sigo sendo apesar de diferente, apesar de não se manifestar da mesma maneira, eu sigo sendo. A real é que apesar de, eu nunca deixei de ser.


Contar quem eu sou envolve muitas histórias que criaram, criam e criará muitas versões de mim. E essas versão vão se apresentando na medida que a vida se movimenta e o que eu preciso é justamente o que tenho feito: dançar a música pulsante da vida que habita em mim da maneira que tem sido possível ser. 


A vida é inevitável, ela acontece e dá o tom.

Escute a o que a sua versão está te dizendo hoje, ela está acompanhada de muitas vozes, aprenda com ela, confie. O trabalho das Biancas que que você já foi, é entregar a Bianca que você está sendo agora, a melhor versão que Bianca pode ser no futuro. 


Só vai, e vai bem Bianca. Se cuide, que tu cuida e o tempo também.

sábado, 14 de outubro de 2023

UMA CARTA ABERTA PARA VOCÊ

 Oi,

Por vezes quando eu me reparo, eu pego estando lá.
Lá naquele lugar que foi nosso e...

Pelo lado de cá, esse momento acontece quando sinto falta do que tínhamos e nesse mesmo clique, os sentimentos desse amor que foi real, traz as memórias de como ele foi vívido.

E aí as coisas ficam difíceis de processar porque sentir falta do que tínhamos (e aqui estou falando da parte das coisas que nos deram borboletas no estômago) e reviver todas a história que esse sentimento escreveu. Essas duas coisas que: são muitos diferentes, que tem seus doces, agridoces, amargos, potentes, cruéis e transformadores sentidos muito plural, esses dois eixos do sentir e viver o que se é sentido. Essas duas coisas, justamente essas duas coisas, muitas vezes, estão em uma cena só, estão em um mesmo ato.

Eu só tive condições de perceber, a gigantesca função que o processar disso na minha vida, me transborda em uma profundidade intensa, cheias de extremos e que desde de que nasci a jogo tem sido esse de administrar e dar conta o tempo todo não cabe na vida, por mais extraordinária que ela seja, ao longo de tudo que aconteceu até o ultimo respirar.

Eu só estou te dizendo isso, porque se hoje eu me percebo, nessa discrição que fiz anteriormente sobre meus sentimentos, quando qualquer coisa vivida nessa lugar chamado de tempo de agora, vai lá e me transporta, me provocar, me atravessa a ponto de quando eu percebo, estou naquele lugar de novo, tem sido uma raiz da minha terapia, lugar esse que tem sido o meu espaço do refazer, conhecer, reconhecer. Pra daí abraçar o desvali, decompor, apodrecer. Porque o processo da vida do jeito que tem sido até aqui, foi/é um adubar-se que segue seu fluxo de forma inevitável a vista do tempo que não para, só segue, mas ao seguir pode parar.

E eu desejo de modo inegociável para que aqueles ciclos, por mais que nos pareça que eles nos pararam, quebraram, ao abusar de ficar em nossas mentes, esgotando todas suas possíveis voltas para as idas e vindas entres os tempos do presente, passado e futuro, em algum momento depois de parecer parar por tanto se repetir, nos faça seguir em um florescer, renascer, tão honesto com o nosso eu, com a nossa história, com as nossas emoções tão único, tão sólido ao ponto que qualquer significado que abalar possa ter quando passamos por algo que nos fere, seja naturalizado em nossa estrutura física e emocional, como ritmos cardíacos.

Daí a cada batida do nosso coração, todas nossas vivência ganhariam uma chance a mais de perceber a frequência que a nossa existência faz vibrar a partir dos acúmulos de cada saldo e segundo -daquele movimento cardíaco inevitável e determinante que significa está vivo precisa ocorrer:

seu coração apesar das infinidades de vivências, segue a bater. a vida pede, e a gente dá.
Eu amei, eu amo. Eu te amo. Eu te amei. Nos dois tempos? Há amor.